Como primeira produção textual de nosso templo, o Ile Olùbámí, em um momento de
mudanças complexas, novos aprendizados e
metamorfoses, escolhemos retratar o começo eterno, aquele que carrega o
movimento e nos auxilia nas novas empreitadas: Esu
O material escolhido para esta reflexão advém do Odu Ogbe Meji (Ejiogbe), o
primeiro dos 16 Oju Odu.
Em um dos poemas encontrados neste Odu, temos contato com uma narrativa onde
as bençãos da riqueza, Aje; as contas(adereço de miçangas associadas a nobreza),
Okùn; a donzela, Omidan; e Enini, o Orvalho (benção associada ao frescor matutino) se
materializam em forma humana e decidem que iriam para a casa de Orunmila, o sábio
adivinho para morar com ele em busca de estabilidade e vida longa no Aiye (terra)
Em seu caminho para a terra, o grupo de bençãos decidiu consultar um Awo (sacerdote
de Ifa), para que pudessem ter as orientações necessárias para a travessia entre Orun
e Aiye, e para que sua estadia na casa de Orunmila fosse próspera e bem aceita.
Ao encontrar o Awo e receber sua consulta, o grupo das bençãos encontrou ótimos
resultados, que as encorajava a ir para a terra sem maiores complicações, mas que
antes deveriam executar o ebo (sacrifício ritualístico) para que não encontrassem
nenhum problema no caminho, e assim o fizeram. O Awo então as informou de que ao
chegar na terra Esu Odara as guiaria para casa de Orunmilá, pois ele vivia em frente à
sua casa.
Pouco tempo depois, Orunmilá também consultou ifá, e recebeu a orientação de que
bençãos que seriam valiosas para toda a sua vida, em um grupo de 4, chegariam em
sua casa dentro de 7 dias, e que por consequência, Orunmilá deveria ficar em sua casa
durante este período, realizar seus ebos e alimentar a Esu Odara, pois ele agiria como
facilitador para que as bençãos encontrassem Orunmilá.
Orunmila realizou seus ebos, mas negligenciou a posição de Esu como aquele que
permite que os ebos cheguem até Olodumare, o deus criador, e garante que retornem
como bençãos para a terra.
Aqui, devemos manter em mente o epíteto de Esu: Esu Odara, que pode ser
traduzido de forma rudimentar como “Esu, o maravilhoso”, ou “Esu, o transformador”um ser dotado da capacidade de realizar milagres, transformação, e a execução do
movimento de forma dinâmica, mas que também exige o reconhecimento do preparo,
boa execução e respeito as orientações divinas quando já foram recebidas.
Esu não tolera de nenhuma forma o não cumprimento do compromisso, e enquanto
age como transformador quando executamos o preparo de maneira adequada antes
dos grandes movimentos, também irá agir como disciplinador, nos mostrando as
consequências claras de quando optamos por deliberadamente ignorar situações que
exigem zelo, cuidado e parcimônia.
Na sequência, quando o grupo das bençãos chegou à terra, rapidamente foram para a
casa de Esu Odara, para que pudessem lhe perguntar qual era a direção da casa de
Orunmila.
Chegando lá, foram recebidas de bom grado, porém ao perguntarem a Esu qual era a
casa de Orunmilá, Esu respondeu “É esta logo a frente, Orunmila mora lá. Mas ele não
está lá agora, ele foi para a fazenda dele, e deve voltar amanhã”. Esu fez isto
deliberadamente, pois sabia que Orunmilá não havia executado a oferenda que lhe
devia, e como não foi respeitado mesmo que ajudasse Orunmilá constantemente, não
permitiu que as bençãos achassem Orunmilá, impedindo-o de consumar seu destino.
Os dias passaram, e o grupo das bençãos voltava diariamente, mas Esu nunca dizia
que Orunmilá estava lá, e como mensageiro dos céus, não deveria ser questionado.
Quando a data se aproximava do final, Orunmila decidiu se consultar com Ifa
novamente, para entender o porquê suas bençãos demoravam tanto a chegar em sua
casa. Ifa respondeu que Orunmila não havia agradado e reconhecido a importância de
Esu, aquele que ficava a frente da porta de sua casa, e o protegia de tudo, e que por
isso, Esu não permitia que as bençãos fossem de encontro a ele.
Rapidamente, Orunmilá executou o ebo que era devido a Esu, e se desculpou,
reconhecendo sua importância.
Daquele momento em diante, Orunmila declamou que todo e qualquer um que
quisesse lhe visitar ou lhe entregar algo, deveria primeiro oferecer o mesmo a Esu
Odara, aquele que guarda sua casa e permite a transformação.
Após isto, esu finalmente guiou as bençãos para a casa de Orunmilá, onde viveramjuntos até a velhice, mudando completamente sua riqueza para melhor.
Este poema de ifa nos mostra de forma clara as consequências de menosprezar ou
tratar de forma insatisfatória as pessoas ao nosso redor. A busca passa a ser pelo
caminho da tranquilidade e comunhão, uma vez que Orunmila nesta história ocupa a
posição do sábio que pode cometer a soberba, e Esu, como o detentor da capacidade
de realização, aquele que canaliza e direciona as bençãos para quem reconhece seu
valor.
Para além de uma parábola, Ogbe Meji nos ensina através de Esu e Orunmila que
mesmo que Ire, a boa sorte se encaminhe em sua direção, é necessário que
cultivemos relações de respeito e comunhão com aqueles que são próximos, pois
podem ser eles, os que canalizarão suas bençãos e boa sorte até você.
Texto por Rafael Paschoalini Gameiro
Awo Ifakan – Primeiro Aprendiz do Ile Olubami
O fogo queima e queima
E vai à margem do Oceano descansar
O sol brilha e brilha
E vai à margem da Lagoa se pôr
A brisa varre a planície e a floresta
E vai ao fundo do oceano recolher-se
Estas foram as declarações de Ifá a AJé, a Riqueza
Sua descendência em Ibini
E a Okún, contas
Sua descendência em Iràdà
E a Omidan, a bela Donzela
Sua descendência em Ikopa
Quando estavam indo residir na casa de Orunmila, meu
pai Agbonniregun
Foram aconselhados a oferecer ebo
Após lançar o seu próprio ifá
Ajude-me a lançar o meu antes que eu retorne
Esta foi a declaração de Ifá a Enini, o Orvalho
A descendência de Ajaniwarun
Quando ia residir na casa de Orunmila
meu pai Agbonniregun
Ele foi aconselhado a oferecer ebo
Algo grande e pesado que vem do céu
Esta foi a declaração de Ifá a Orunmila
Para quem quatro Irè estarão esperando sem cessar
Ele foi aconselhado a oferecer ebo
Ele obedeceu
Não muito tempo depois
Venham e juntem-se a nós no meio da alegria e contemplem todo Irè
Poema do Oju Odu Ogbe Meji